A IMPORTÂNCIA DO EXAME OCULAR PERIÓDICO EM CÃES REPRODUTORES
As doenças genéticas em cães de raça causam muitos transtornos e aborrecimentos tanto para proprietários quanto para criadores. Cães de qualquer raça podem apresentar doenças genéticas oculares, com destaque para catarata, atrofia progressiva de retina (PRA), displasias de retina e alterações palpebrais. A catarata ocorre quando o cristalino (lente do olho) perde sua transparência e fica opaco. É considerada hereditária quando aparece entre 2 e 9 anos, geralmente, e sua correção é exclusivamente cirúrgica. O diagnóstico da catarata pode ser realizado por meio de exame oftalmológico de rotina, após a dilatação das pupilas. A PRA é a degeneração (morte) do tecido nervoso da retina, causando cegueira noturna, inicialmente, e diurna, posteriormente. Não existe tratamento para esta doença e o animal portador pode ficar cego em cerca de um ano. O grande desafio no controle da PRA é o fato da doença aparecer por volta dos 7-8 anos de idade, quando o animal já reproduziu. Felizmente já existe teste de DNA, disponível nos Estados Unidos, que possibilita a detecção do gene em animais de qualquer idade. As displasias de retina são anormalidades congênitas na estrutura da retina, como dobras ou pregas, que podem causar descolamento de retina e cegueira, dependendo da extensão. Não existe tratamento, porém as displasias de retina podem ser diagnosticadas no exame de fundo de olho. Entre as alterações palpebrais hereditárias mais comuns estão o entrópio (parte ou toda margem palpebral voltada para dentro, em direção ao olho, causando o atrito dos pêlos com a superfície ocular), a distiquíase (cílios extras, posicionados anormalmente na margem palpebral, tocando a córnea) e o ectrópio (inverso do entrópio, ou seja, parte da margem palpebral voltada para fora, causando exposição anormal da conjuntiva e da superfície ocular). Todas essas alterações podem causar lacrimejamento excessivo, secreção ocular, conjuntivite, ceratite e úlcera de córnea, necessitando de correção cirúrgica.
Nos Estados Unidos, o Colégio Americano de Oftalmologia Veterinária (ACVO – American College of Veterinary Ophthalmology) criou o CERF (Certification Eye Registration Foundation - Fundação de Registro de Certificação Ocular). Veterinários oftalmologistas reconhecidos pelo ACVO (eles fazem uma prova para serem reconhecidos especialistas) podem fornecer o certificado do CERF para cães por eles examinados, que é válido por um ano. Uma cópia desse certificado é enviada à Universidade de Purdue, Indiana, EUA, onde é realizada estatística anual de todas as doenças genéticas oculares de todas as raças reconhecidas pelo AKC (American Kennel Club). Com isso, os criadores e veterinários sabem se uma doença genética está aparecendo com maior freqüência em uma determinada raça, e podem tomar as providências necessárias.
No Brasil, infelizmente, a especialidade “oftalmologia veterinária” não é reconhecida pelo CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária). Entretanto, existem muitos veterinários especializados em oftalmologia veterinária no país, apresentando condições técnicas de examinar e diagnosticar doenças genéticas oculares em cães, mesmo sem o título. O Colégio Brasileiro de Oftalmologia Veterinária ainda não tem um certificado de exame ocular unificado para o país inteiro, o que seria ideal. Mas, tanto o reconhecimento da especialidade, quanto a criação de um certificado único no país, já estão em discussão e devem ocorrer nos próximos anos. Porém isso não é motivo para os criadores brasileiros não levarem seus cães reprodutores para o exame ocular, com médicos veterinários qualificados e especializados. O exame deve ser anual, pois algumas doenças, como a catarata, não estão presentes ao nascimento e podem se desenvolver tardiamente.
Cabe aos criadores fazer o possível para evitar o aparecimento e desenvolvimento dessas doenças em seu canil, através do controle dos reprodutores. Ainda, cabe aos proprietários pesquisar, estudar a raça escolhida, conhecer suas doenças genéticas mais freqüentes, e procurar criadores idôneos que testem seus cães com exames periódicos.